16 de out de 2009

TERAPIA LEITURA/ESCRITA


TERAPIA LEITURA/ESCRITA


Pode-se definir a disgrafia como uma deficiência na qualidade do traçado gráfico sendo que, essa deficiência, não deve ter uma causa um “déficit” intelectual e/ou neurológico. Está-se, portanto, falando de crianças de inteligência média ou acima da média, que por vários motivos apresentam uma escrita ilegível ou demasiadamente lenta, o que lhes impede um desenvolvimento normal da escolaridade (Ajuriaguerra, 1977).

A disgrafia, também chamada de “letra feia”, não está necessariamente associada à disortografia. No entanto, a criança que tem dificuldades para escrever corretamente a linguagem falada, apresenta geralmente uma disgrafia. Na maioria destes casos, a “letra feia” é conseqüência das dificuldades para recordar a grafia correta para representar um determinado som ouvido ou elaborado mentalmente. Neste sentido, a criança escreve devagar, retocando cada letra, realizando de forma inadequada as uniões entre as letras ou, amontoando-as com o objetivo de esconder os erros ortográficos. É possível, porém, encontrar crianças disgráficas que não apresentam qualquer tipo de disortografia.

Principais características encontradas em crianças disgráficas:
a) Má organização da página: este aspecto está intimamente ligado à orientação espacial. As crianças com dificuldades em organizar adequadamente sua escrita numa folha de papel, apresenta um distúrbio de orientação espacial. Sua escrita caracteriza-se pela apresentação desordenada do texto com margens mal feitas ou inexistentes, espaços entre palavras e entre linhas irregulares e, escrita ascendente ou descendente.

b) Má organização das letras: a característica principal deste aspecto é a incapacidade da criança em submeter-se às regras caligráficas. O traçado apresenta-se de má qualidade, as hastes das letras são deformadas, os anéis empelotados, letras são retocadas, irregulares em suas dimensões e atrofiadas.

c) Erros de formas e proporções: refere-se ao grau de limpeza do traçado das letras, sua dimensão (demasiado pequena ou demasiado grande), desorganização das formas e, escrita alongada ou comprida.

Os indicadores que se consideram para a disgrafia recebem os mesmos nomes que os indicadores de dislexia, apenas observam-se que na primeira estes ocorrem na escrita (inversão, substituição, translação, omissão, agregado, etc.) e, na segunda, na leitura.

INDICADORES DE DISGRAFIA EXEMPLOS
Inversão de letras ne x en; areonautas x aeronautas
Inversão de sílabas penvasa x pensava
Inversão de números 89 x 98; 123 x 213
Substituição de letras gogar x jogar; irnão x irmão
Substituição de sílabas ponta x pomba
Substituição de palavras Substituição menino x ninho; lindo x grande
De números 3225 x 325

Casos especiais de agregado:
Por reiteração: quando se agrega uma mesma letra, sílaba, palavra ou número (passassada por passada).
Por traslação: pode ser prospectiva ou retrospectiva.
Prospectiva: Ej.: “toma tosopa” por “toma sopa”.
Retrospectiva: Ej.: “mea aproximei” por “me aproximei”.

Omissão de Letras tabém x também
Omissão de sílabas prinpal x principal
Omissão de palavras por não voltar... x por favor, não voltar
Omissão de números 32 x 302
Dissociação de palavras ci ne x cine
Contaminação de letras fortese x fortes
Contaminação de sílabas sedeitou x se deitou
Contaminação de palavras haviaúma x havia uma
Ignorância de uma grafia (dificuldade para evocar resíduo agráfico num sintoma e representar uma grafia) disgráfico


O termo disgrafia motora (discaligrafia) consiste na dificuldade de escrever em forma legível. Os indicadores mais comuns da discaligrafia são: micrografia; macrografia; ambas combinadas; distorções ou deformações; dificuldades nos enlaces; traçados reforçados, filiformes, tremidos; inclinação inadequada; aglomerações, etc.

A criança consegue falar e ler e as dificuldades ocorrem na execução de padrões motores para escrever letras, números ou palavras. Pode ocorrer defeito motor ou apenas a nível de integração (neste caso a criança vê a figura, mas não sabe fazer os movimentos para escrever as letras). Geralmente estas crianças são hipotônicas, desequilibradas, disárticas (fala lenta). Os graus de comportamento são variáveis. Os casos em que ocorre um distúrbio importante da integração visuo espacial e motricidade representam disfunção a nível do lobo parietal e frontal. Quando há dificuldade apenas na produção de uma letra proporcional e legível a disfunção ocorre predominantemente no lobo frontal ou no cerebelo. Alguns autores chamam este último quadro de discaligrafia ou disgrafia motora.

Esta situação não é um desleixo ocasional, e sim uma deficiência constante. Não se obtém uma produção mais adequada repreendendo-se a criança. Deve-se comparar sua própria obra, para obter um parâmetro de sua melhor produção. Este deve ser objetivo a ser alcançado e não a perfeição, que para esse aluno é inatingível. O professor deve trabalhar a conscientização do aluno para sua melhor performance e reforçá-lo positivamente sempre que a alcance.

Em relação à etiologia da disgrafia, que é nalguns casos concomitante com a dislexia, é difícil determinar as suas causas, embora se possam definir três grandes grupos:
· em primeiro lugar, uma pequena alteração neurológica que incida no desenvolvimento e coordenação psicomotora;
· outro motivo vulgarmente apontado são os problemas relacionados com a lateralidade, que podem apresentar-se associados a outros de tipo perceptivo, nomeadamente os visuo-espaciais;
· por último, é apontada por alguns investigadores uma componente emocional que pode favorecer alterações na escrita, sendo resultado de tensões e/ou problemas afectivos que afectem um determinado sujeito. (Baroja, 1989)

A partir do diagnóstico de um distúrbio do aprendizado da leitura e da escrita, o primeiro ponto a ser considerado é a conduta frente aos achados da avaliação. A razão que motivou o processo diagnóstico deve ser retomada, relacionando-a às eventuais alterações encontradas, devendo ser explicitadas aos familiares e ao paciente, associadas às possíveis causas do distúrbio.

A partir de então a busca de uma melhor conduta frente ao problema deve ser adotada.

No caso da constatação da necessidade de um atendimento fonoaudiológico, o primeiro aspecto a ser considerado e a motivação para a escrita, que só ocorre na medida em que a mesma assuma um significado para o paciente. Essa motivação é representada por uma necessidade real de se comunicar por meio do código gráfico, e, para que isto ocorra a escrita deve se tornar parte integrante de sua vida no fornecimento de informações; deve deixar de ser somente uma obrigação escolar, fornecendo elementos comunicativos essenciais.
Dependendo da natureza das alterações, e, seguindo a linha de raciocínio da avaliação de linguagem, forneceremos alguns objetivos terapêuticos para o distúrbio do aprendizado da leitura e da escrita, levando o princípio da motivação.

Atividades motoras

Motricidade geral
1. Consciência global do corpo: andar, correr, saltar, rodar, etc.
2. Equilíbrio estático e dinâmico: ficar parado, ficar num pé só.
3. Dissociação de movimentos: reproduzir uma série de posições de braços, pernas, mãos.
4. Jogos mímicos.

Motricidade fina: específicas para as disgrafias
1. Atividades com as mãos e dedos: embaralhar cartas, abotoar e desabotoar, cortar, rasgar papel, manipular marionetes, jogar bolas de gude, reproduzir movimentos dissociados dos dedos de uma mesma mão.
2. Pinturas e desenhos livres.
3. Pinturas dirigidas, procurando preencher todo o espaço do papel.
4. Execução de diferentes formas gráficas: linhas retas horizontais, verticais ou oblíquas, linhas circulares e formas geométricas.
5. Execução de símbolos gráficos a partir de modelos.

Atividades cognitivas
1. Espaciais: andar em cima de espaços demarcados, entrar e sair de compartimentos de diferentes tamanhos, passar por baixo ou por cima de obstáculos, mudar a direção ou o sentido dos movimentos corporais, colocar objetos de diferentes tamanhos em recipientes, imitação de movimentos corporais globais ou de membros superiores e inferiores seguindo uma seqüência;
2. Temporais: reproduzir diferentes ritmos, criar ritmos, seqüencializar figuras, seqüencializar fatos a partir da apresentação de uma história.
3. Lateralidade: traçar linhas dividindo objetos simétricos verificando sua igualdade e a relação lado direito e esquerdo, traçar linhas dividindo figuras do corpo humano, movimentar membros superiores ou inferiores direito e esquerdo de maneira alternada, mudar de posição (frente e costas) enquanto movimenta membros superiores e inferiores.

Atividades de audibilização

A) Identificação e discriminação auditiva
1. Localização auditiva: estímulos não-verbais e verbais em todas as posições: na frente, atrás, do lado direito, do lado esquerdo.
2. Identificação e discriminação de sons referentes à altura tonal e intensidade.
3. Discriminação de vozes conhecidas.
4. Identificação de sons ambientais e associações com sua fonte.
5. Discriminação entre sons ambientais iguais, parecidos e diferentes.
6. Discriminação entre sons da fala iguais, parecidos e diferentes.
7. Reconhecimento e discriminação de sons consonantais específicos.
8. Exercícios de rimas com palavras.

B) Seqüência temporal e memória auditiva
1. Ritmo e seqüência.
2. Responder a ordens verbais (entoação).
3. Responder a ordens verbais com simbolização.
4. Seqüencializar sons ambientais.
5. Seqüencializar sons da fala.
6. Evocar seqüências a partir de símbolos.
7. Ordenar orações desordenadas.
8. Outros: aumentar frases. Rimas de ação. Músicas.

C) Percepção discriminativa
Altura, intensidade, duração, ritmo.

1. Não-verbal – som isolado, pares, trios e combinações entre matizes.

2. Verbal – vogais sílabas com fonemas parecidos, logatomas, pares mínimos.

D) Percepção analítico-sintética
1. Não-verbal – seqüências de 3 a 4 estímulos a serem sintetizados num todo.

2. Verbal – recompor palavras fragmentadas por sílabas, ou frases fragmentadas por palavras. A partir destas (sílabas ou palavras), formar novas palavras ou frases.

E) Percepção figura-fundo
Não-verbal e verbal com ruído de fundo.

F) Memória
1. Não-verbal – 2 a 4 estímulos.

2. Verbal – séries de palavras simples com aumento de complexidade. Aumento de ordens contidas em uma mesma mensagem verbal. Completar detalhes omitidos na segunda versão de uma história. Reconhecer palavras que integrem outras, por exemplo, soldado.

Atividades de visualização
1. Identificação de diferenças em figuras.

2. Identificação de detalhes em figuras.

3. Discriminação de palavras com grafias iguais, parecidas e diferentes.

4. Discriminação de grafemas iguais, parecidos e diferentes.

5. Memória para seqüência de estímulos visuais: gestos, figuras, palavras.

6. Análise-síntese visual: recortar figura em 2 ou 4 partes e depois montá-la; quebra-cabeça; caça-palavras.

7. Discriminar figura-fundo visual.
Atividades de estimulação da linguagem e da fala

Dramatizações; Contar histórias, novelas, filmes; Adivinhações; Descrições; Absurdos; Opostos; Categorias; Funções; Suposições; Palavras com vários significados; Derivados das palavras.

Atividades de estimulação da leitura e da escrita

A) Motivação para a leitura e elaboração gráfica
Crianças com alterações no conteúdo da elaboração gráfica necessitam de uma estimulação especial para que encontrem na escrita uma forma agradável de receber informações ou manifestar suas idéias. Ao estimulá-las, devemos levar em conta condições indispensáveis para a sua motivação e envolvimento em atividades informais ou dirigidas:
• Tomada de consciência do objetivo real da leitura. A criança deve ser levada a sentir a necessidade de ler, o q pode ocorrer por meio de jogos e atividades motivantes que requeiram a leitura de regras, partindo-se de representações gráficas com aumento de complexidade de simbolização: figuras de ação, logotipos que identifiquem um produto, palavras e frases.
• A partir da análise do campo de estímulos do meio ambiente do indivíduo, fornecer diferentes materiais de leitura, preferencialmente ilustrados, partindo sempre de conteúdos significativos e do interesse da criança: histórias, gibis, revistas, jornais, propagandas, embalagens, etc.
• Valorização de qqr tentativa espontânea de decodificação ou produção gráfica.
• Considerando q grande parte das crianças c/ alterações de forma (trocas, omissões, inversões de grafemas) temem escrever pelo seu histórico de desaprovações, enfatizar o valor do conteúdo de suas emissões gráficas procurando, de início, evitar correções de ortografia ou de gramática.

B) Sugestões de atividades para o desenvolvimento do conteúdo gráfico
• Estimular o desenho e a pintura, vistos como primeira forma de comunicação gráfica.
• Editar a fala da criança (palavras ou frases) e solicitar uma leitura conjunta desta produção pode ser uma atividade motivante, considerando q a mesma pode reconhecer o conteúdo de sua verbalização, antecipando-se à decodificação e conferindo a produção gráfica do terapeuta.
• Escrita conjunta de um tema pré-determinado, onde um cada desenha ou escreve uma palavra ou uma linha da composição. Sugerir a confecção de uma agenda ou diário onde a criança desenhe ou escreva coisas de seu interesse; por se tratar de 1 registro de caráter pessoal ñ devemos ler as anotações feitas pela criança, valorizando so// o seu ato de escrever.
• Substituir palavras em frases retiradas do contexto, onde sejam mantidas as estruturas gramáticas pode ser uma atividade divertida. Por exemplo, podemos sortear palavras previamente grafadas, para a substituição de determinados elementos da frase:
A menina caiu da cadeira.
a menina – a mulher, o homem, a boneca, etc.
caiu da – sentou na, quebrou a, pintou a, etc.
cadeira – árvore, escada, cama, etc.
• preencher balões de diálogos em ilustrações;
• completar ou aumentar frases;
• criar títulos para histórias;
• mudar o final de histórias.

C) Atividades ortográficas
Mais uma vez, a estimulação deve seguir os princípios da motivação. Antes da formalização desse trabalho, a criança deve ter consciência de que o mais importante é o conteúdo de sua comunicação gráfica. A correção da forma deve basear - se na escrita produzida a partir da necessidade de comunicação gráfica, determinada pelos diferentes contextos terapêuticos.

Trocas e omissões de natureza perceptual auditiva

Podem se manifestar na comunicação oral e na gráfica ou somente nesta última. Sucede o trabalho geral de audibilização: atenção, discriminação, memória, análise-síntese, figura-fundo auditivas. As atividades específicas que abrangem esses aspectos devem ser representadas graficamente pelo terapeuta, pela criança ou por ambos. Sugestões:
• Extrair e representar graficamente, a partir de atividades contextualizadas, palavras que se contenham o fonema omitido, ou um dos fonemas do par (ou pares), responsável pela dificuldade de discriminação (atenção, memória).
• Evocar e criar listas de palavras que contenham este mesmo som (análise-síntese).
• Formar novas palavras a partir da sílaba inicial, medial ou final das palavras evocadas, procurando incluir o fonema/ grafema em questão (análise-síntese).
• Construir frases diferentes c/ as palavras extraídas do contexto (memória, análise-síntese, elaboração).
• No caso da troca, proceder da mesma maneira com o outro fonema do par. Contrapor as palavras levantadas, procurando características acústicas que diferenciem os fonemas que as compõem, usando também as pistas táteis e cinestésicas (discriminação).
• Discriminar auditivamente as palavras levantadas, associadas aos seus respectivos grafemas.
• Discriminar novas palavras que contenham os pares trabalhados.
• Proceder da mesma forma com os demais pares de dificuldade.

Trocas e omissões de natureza perceptual visual

Sucede o trabalho geral de visualização: atenção, discriminação, memória, análise-síntese, figura-fundo visuais. Sugestões:
• Possibilitar um contato visual repetitivo com as palavras que contenham os grafemas em questão: jogos de memória, loto de palavras, palavras derivadas, sorteio de palavras.
• Depreensão de regras ortográficas a partir da evocação de palavras que contenham o mesmo som. O terapeuta escreve estas palavras e a criança deve procurar a diferença de grafia marcando as semelhantes por meio de uma mesma representação. Por exemplo, regra do s (posição inicial) e ss (posição medial e final):
sapato passo passarinho solidão sino sono assustado sempre péssimo assunto
• Criar listas de palavras a partir da depreensão das regras.
• As trocas específicas da posição de grafemas (inversões, reversões) implicam no trabalho de desenvolvimento das noções de espaciais descritas anteriormente.
* Recebido do Grupo do Google.

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